A crise é de caráter e a solução também: Por que alguns sentem indignação e outros não — e o que isso revela sobre nós

O Brasil vive tempos turbulentos, mas o diagnóstico mais preciso da nossa situação atual não se limita a análises econômicas ou ao xadrez partidário de Brasília. A verdadeira raiz do problema é mais profunda e, muitas vezes, mais dolorosa de se admitir: vivemos, essencialmente, uma crise de caráter.

Diante dos recentes escândalos, abusos de poder e decisões questionáveis que dominam o noticiário, um fenômeno social chama a atenção: a disparidade nas reações. Enquanto uma parcela da população sente uma indignação visceral, outra assiste a tudo com apatia ou, pior, tenta justificar o injustificável. Mas o que explica esse abismo moral entre os brasileiros?

O termômetro da indignação

A capacidade de se indignar diante do que é errado é o reflexo direto dos valores inegociáveis de um indivíduo. Quando a corrupção é normalizada ou quando o atropelo das leis é aplaudido sob a justificativa de que “os fins justificam os meios”, o que se revela não é apenas uma preferência política, mas uma flexibilização ética.

Quem perde a capacidade de se revoltar contra a injustiça — independentemente de quem a cometa — perdeu também a sua bússola moral. A ausência de indignação em parte da sociedade demonstra como anos de relativismo corroeram a percepção do que é certo e errado. Para essas pessoas, a moralidade tornou-se elástica, moldando-se à conveniência do momento ou à defesa de seus “lados”.

O que isso revela sobre nós?

Essa polarização de sentimentos escancara uma fratura na identidade nacional. Revela que estamos divididos não apenas por ideologias, mas por visões de mundo incompatíveis no que diz respeito à integridade.

O silêncio complacente de alguns é o combustível que alimenta a impunidade e a audácia daqueles que estão no poder. Por outro lado, a indignação persistente de outros é o último bastião de resistência democrática e moral do país. É a prova de que o tecido social, embora esgarçado, ainda possui cidadãos que não estão à venda.

A solução passa pelo espelho

Se a crise é de caráter, a solução inevitavelmente também será. Não virá de canetadas mágicas, de salvadores da pátria ou de reformas puramente institucionais. A restauração do país exige um resgate inadiável das virtudes básicas: honestidade, honra, coragem e coerência.

A mudança começa na recusa individual em aceitar o inaceitável. A verdadeira revolução que o Brasil precisa é moral. E ela se inicia no momento em que decidimos não negociar nossos princípios, mantendo viva a chama da indignação justa. Afinal, uma nação só se levanta quando o caráter de seu povo se recusa a curvar-se diante da degradação.

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Bruno Rigacci

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