Ao contrário do que disse Moraes, Trump jamais endossou o Sistema Eleitoral Brasileiro
Durante a sessão da 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) na quarta-feira, 26, o ministro Alexandre de Moraes fez uma afirmação que gerou controvérsia, ao declarar que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria expressado admiração pelo sistema eleitoral brasileiro, particularmente pelas urnas eletrônicas do país. Moraes afirmou que, em um decreto assinado por Trump, as urnas eletrônicas brasileiras foram citadas como exemplo de “lisura” eleitoral.
De acordo com o ministro, o decreto de Trump confirmava a “lisura” das eleições brasileiras e o modelo de urnas eletrônicas como referência para o sistema eleitoral dos EUA. Ele também comparou o decreto norte-americano a um ato semelhante do Brasil, apontando que o Brasil seria mencionado como um modelo de segurança eleitoral.
“[…] O Brasil é citado expressamente como modelo de sucesso pelo presidente norte-americano. Enquanto isso, aqui, houve toda uma preparação para colocar em dúvida as urnas eletrônicas. E a Abin, sob a gestão de seu então diretor-geral, participou desse movimento”, declarou Moraes durante a sessão, sugerindo que a afirmação de Trump validava o sistema eleitoral brasileiro e contrariava os ataques à segurança das urnas eletrônicas.
No entanto, a interpretação de Moraes não corresponde ao conteúdo oficial do decreto assinado por Trump. O Brasil é mencionado apenas uma vez no documento, e essa referência não faz nenhum elogio ao sistema das urnas eletrônicas. O trecho do decreto, publicado no site da Casa Branca, menciona o Brasil apenas como um exemplo de país que usa dados biométricos para identificar seus eleitores, e não como um modelo a ser seguido em relação ao sistema eleitoral em si.
O decreto faz uma comparação com os Estados Unidos, destacando que países como Índia e Brasil estão vinculando a identificação dos eleitores a bancos de dados biométricos, enquanto os EUA ainda dependem largamente da autodeclaração de cidadania. Não há qualquer avaliação direta do sistema eleitoral brasileiro, como sugerido por Moraes.
Além disso, Donald Trump também falou publicamente sobre a questão em uma entrevista, na qual criticou o sistema eleitoral dos EUA e sugeriu a adoção de “cédulas em papel” e a realização de um único dia de votação, citando a França como exemplo. Trump reforçou sua opinião de que as eleições nos Estados Unidos são “muito desonestas” e “corruptas”, e que seria fácil fortalecer o processo eleitoral adotando práticas como as sugeridas.
Apesar dessa distorção de Moraes em relação ao conteúdo do decreto, a sua declaração foi aceita sem questionamento pelos outros ministros durante a sessão do STF. A sessão culminou na aprovação unânime da acusação contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e mais sete suspeitos, indiciados por tentativa de golpe, o que foi um dos marcos do julgamento.
Essa divergência na interpretação do conteúdo do decreto e a maneira como a declaração foi recebida pelos ministros do STF têm gerado debates sobre a precisão das informações apresentadas no processo.