Dólar fecha em alta com receio de sanções dos EUA “pós STF”
O dólar comercial encerrou esta terça-feira (9) em alta de 0,35%, cotado a R$ 5,4363, mesmo com a leve desvalorização da moeda americana frente a outras divisas latino-americanas e em um dia de valorização das commodities como minério de ferro e petróleo. O movimento foi atribuído, por analistas, ao clima de incerteza política no Brasil e ao receio de possíveis sanções externas, especialmente dos Estados Unidos, em meio ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF).
Com baixa liquidez e variação estreita durante o dia — entre R$ 5,4151 e R$ 5,4394 —, o câmbio refletiu um mercado defensivo, segundo operadores. A moeda acumula alta de 0,26% em setembro, após queda de 3,19% em agosto. No acumulado do ano, o dólar ainda recua 12,04%.
Julgamento de Bolsonaro traz cautela ao mercado
O STF iniciou nesta semana o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, ação que também envolve figuras como o general Braga Netto, seu ex-vice na chapa de 2022, e o tenente-coronel Mauro Cid. O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, votou pela condenação de Bolsonaro e de outros sete réus. O voto foi acompanhado pelo ministro Flávio Dino. O julgamento será retomado na quarta-feira (10), a partir das 9h.
Apesar de o resultado do julgamento já ser amplamente esperado, o mercado demonstra preocupação com as repercussões internacionais de uma eventual condenação. Analistas observam que o clima político pode ter impactos econômicos concretos, sobretudo no relacionamento com os Estados Unidos.
Temor de sanções americanas em caso de condenação
De acordo com Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora, há receio de que, em caso de condenação de Bolsonaro, o governo dos Estados Unidos sob eventual nova gestão de Donald Trump venha a impor sanções ao Brasil.
“A cúpula virtual do Brics, convocada por Lula nesta segunda-feira (8), reforça o temor de retaliação americana, levando os investidores à defensiva”, afirmou Galhardo. “O mercado está claramente buscando proteção, o que segura esse dólar acima de R$ 5,40. A liquidez baixa mostra que há pouca disposição para tomar riscos.”
Questionada sobre possíveis sanções, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que não há “nenhuma ação adicional para antecipar”, mas destacou que os EUA não hesitam em usar seu poder econômico e militar para “proteger a liberdade de expressão ao redor do mundo”.
Selic elevada ainda limita depreciação do real
Apesar do cenário de instabilidade política e receios geopolíticos, a economista-chefe da B.Side Investimentos, Helena Veronese, ressalta que a taxa básica de juros (Selic) em patamar elevado ainda mantém a atratividade do real para investidores estrangeiros no chamado carry trade.
“O julgamento em si não deve surpreender, mas o mercado teme novas sanções de Trump, caso ele volte ao poder. Ainda assim, o real segue protegido pelo diferencial de juros”, disse Veronese.
Dólar no exterior também sobe
No exterior, o índice DXY — que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de moedas fortes — subiu 0,35%, para 97,813 pontos, em leve recuperação das perdas recentes. A valorização veio mesmo após o Departamento do Trabalho dos EUA revisar para baixo a geração de empregos até 2025, com corte de 911 mil vagas no payroll.
A revisão acentuou críticas ao Federal Reserve, com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, dizendo que o banco central está “sufocando o crescimento” com os juros elevados. O mercado já aposta em um corte de pelo menos 25 pontos-base na taxa básica na reunião do Fed em 17 de setembro.
Veronese projeta até três cortes seguidos de 25 pontos-base ainda neste ano e vê um ambiente externo propício para a fraqueza do dólar globalmente, o que poderia beneficiar o real, caso o cenário político não se deteriore ainda mais.
“O cenário ainda é de dólar fraco no mundo, com o corte de juros pelo Fed e pela própria política econômica de Trump. O comportamento da moeda aqui vai depender no curto prazo de possíveis novas sanções americanas”, conclui a economista.





